Pressa, atraso e pressão: por que aceleramos o fim da educação infantil?

Pilar Cunha, mãe do Antonio, e Thais Colli, mãe do João, contam sobre o processo de escolha da escola dos seus filhos após a experiência de educação infantil na Catavento; e falam da importância desta decisão ser tomada com tranquilidade.  

 

 

A turminha de João e Antonio, quando frequentaram a Catavento. Registro de 2015.

Pilar Cunha, mãe do Antonio

No fim de 2015, Antonio estava encerrando o G3. Sua mãe, Pilar Cunha, conta que a família se viu – como todas as famílias – no dilema do que fazer. “Todos os dias, nos encontros no portão da escola, rolava aquela conversa com outros pais e mães: “E aí? Seu filho vai continuar aqui ou vocês vão mudar de escola?”. Começamos a pesquisar as escolas que nos interessariam, fizemos inscrição em algumas, chegamos a ir em reuniões de apresentação das propostas pedagógicas e participar dos processos seletivos. Antonio faria 6 anos em maio de 2016, portanto já estava com condições de ingressar no 1º ano no ano seguinte. Lá pelas tantas, paramos pra pensar: “por que estamos querendo fazer essa mudança agora? Seria tão bom que ele terminasse o ciclo do infantil com a turma que cresceu com ele desde o berçário… Não temos pressa para que ele viva nenhum processo de alfabetização, ao contrário: acreditamos que ele deve é ter mais tempo pra brincar livremente, pois a partir do fundamental cada vez mais o conteúdo ganha espaço na vida da criança e o tempo do brincar vai sendo restringido…”.

Pilar conta que eles perceberam que estavam fazendo esse movimento todo por medo de ficar sem vaga. “Todas as histórias de filas de espera enormes, de dificuldade de ingresso em certas escolas chegavam até nós e mobilizavam o medo de que nosso filho ficaria sem a escola dos sonhos se não antecipássemos a transferência dele. Ao percebermos isso, cabia a nós fazer uma escolha…”, relembra.

Ela conta como se deu a escolha. “Optamos pelo que entendemos que seria o melhor para ele e não para nós pais naquele momento. Para ele, acreditávamos que ficar mais um ano na Catavento, no infantil, com a turma de amigos tão especiais, sem acelerar nada, seria o melhor. E, ao escolhermos isso, escolhemos também viver o processo de ingresso em uma nova escola no ano seguinte com todos os riscos imaginados. Sustentamos esse nosso “medo”, aponta.

Ela acrescenta que a integração das crianças e famílias com a escola foi importante. “Nós como grupo fomos nos apoiando e tomando essa decisão juntos. Famílias e escola. Isso deu ainda mais segurança”, afirma.

O que aconteceu depois disso? “Antonio ficou no G4, em um ano que foi dos mais importantes pro desenvolvimento dele. A turma encerrou o ciclo junta, com ganhos de convivência que são incomensuráveis. Ao fim do G4, tudo deu certo e pudemos escolher a escola que mais se aproximava do que buscávamos para ele. Não corremos o risco de ficar sem vaga, pudemos inclusive escolher entre mais de uma possibilidade! E percebo que ele entrou no ciclo fundamental no tempo certo, com a maturidade necessária para viver novos processos que começam a fazer parte da vida da criança dali pra frente”, conclui Pilar.

 

Thais Colli, mãe do João

João frequentou a Catavento até os 6 anos. Thais conta que respeitar o tempo da infância e do seu filho trouxe muitos benefícios. “Sinto que foi muito importante para ele respeitar esse tempo, porque trouxe segurança e fez com que os processos fossem maduros e completos. Ele teve a oportunidade de aproveitar este momento do seu desenvolvimento”, diz.

João começou na Catavento com um ano e meio e foi para o primeiro ano no ano em que completava sete anos. “Eu e o pai dele tomamos a decisão de respeitar o ritmo dele e não antecipar nenhum dos processos. Quando foi para o Colégio São Domingos, ele estava pronto para tudo que estava por vir. O processo foi super bonito e tranquilo. A Catavento deixou o João preparado para sair da escola no momento certo”, conta Thais.

 

Ela explica que se sentiu muito confortável e segura com esta decisão. “A Catavento foi maravilhosa em todos estes momentos em sempre priorizar o brincar e o lúdico. O João agora está no segundo ano, completamente alfabetizado, escrevendo e lendo. Ele adora matemática!”.

Para saber mais

A advogada Ester Rizzi explica as mudanças na legislação que podem gerar confusão e apreensão. Leia o depoimento dela.

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